A Semana



Dia da Mulher: por que tantas mulheres cuidam de todos, menos de si?

Especialista analisa como a sobrecarga histórica e a cobrança social contribuem para que, mesmo diante de conquistas, muitas mulheres ainda deixem o próprio bem-estar em segundo plano

No Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, a sociedade relembra conquistas históricas e avanços na luta por direitos e igualdade. No entanto, para além das homenagens, muitas mulheres ainda vivem uma realidade silenciosa: acumulam múltiplas jornadas e deixam o próprio bem-estar sempre para depois. Trabalho, casa, filhos, gestão emocional da família e demandas sociais formam uma rotina que, muitas vezes, transforma o autocuidado em luxo — ou até em motivo de culpa.

Segundo a coordenadora do curso de Psicologia do Centro Universitário Braz Cubas, Eliana Farias, a sobrecarga feminina não é apenas circunstancial, mas histórica e estrutural. “Existe um fenômeno da sobrecarga feminina sustentado por dinâmicas biopsicossociais que reforçam a negligência do autocuidado”, explica.

Historicamente, a socialização feminina foi pautada pelo que a literatura chama de “teoria do cuidado”. As mulheres são condicionadas a desenvolver um self-in-relation, ou seja, uma identidade construída a partir da manutenção de vínculos e da prontidão para atender às necessidades alheias.

A professora explica que esse imperativo do cuidado transformou a dedicação ao outro em um valor moral. Em contrapartida, direcionar tempo e energia para si mesma passou a ser interpretado como uma ruptura do papel social esperado e, muitas vezes, associado ao egoísmo.

A soma das múltiplas jornadas gera o que especialistas chamam de carga mental — ou sobrecarga mental. Entre os impactos mais comuns estão a exaustão cognitiva, marcada pela fadiga decorrente da tomada constante de decisões; a fragmentação da identidade, quando a mulher passa a se reconhecer apenas pelos papéis que exerce, como mãe, profissional ou esposa, perdendo a conexão com seus próprios desejos; e a somatização, caracterizada por manifestações físicas do estresse crônico, como distúrbios do sono, alterações gastrointestinais e tensão muscular.

Outro fator recorrente é a culpa associada ao autocuidado. Para a especialista, trata-se de um mecanismo de controle social internalizado. “Existe a crença de que os recursos da mulher — tempo, energia e afeto — são bens coletivos. Em psicoterapia, é possível trabalhar a reestruturação cognitiva, desafiando a ideia de que ‘ser boa é ser sacrificada’ e fortalecendo o estabelecimento de limites assertivos”, afirma.

O alerta deve acender quando começam a surgir sinais como despersonalização, caracterizada pelo distanciamento emocional das pessoas de quem ela cuida; anedonia, que é a perda de prazer em atividades antes consideradas satisfatórias; irritabilidade desproporcional diante de situações cotidianas; e uma sensação constante de ineficácia, mesmo diante de esforço extremo. Do ponto de vista psicológico, o autocuidado não se resume a consumo ou a momentos pontuais de lazer, mas envolve autorregulação emocional, preservação do equilíbrio psíquico, respeito aos limites biológicos e a prática da autocompaixão.

As plataformas digitais podem intensificar o problema. A comparação social ascendente e o chamado “autocuidado performativo” — marcado por estética impecável e produtividade constante — criam padrões inalcançáveis. “O autocuidado real muitas vezes é invisível e envolve dizer ‘não’ a demandas externas para proteger a própria saúde mental”, pontua.

Para mulheres que desejam romper esse ciclo, Eliana sugere algumas estratégias práticas, como: iniciar com microintervenções, reservando ao menos 15 minutos diários de desconexão total dos papéis que desempenham; investir na alfabetização emocional, nomeando os próprios sentimentos antes de agir para resolver demandas alheias; praticar a delegação efetiva, compreendendo que redistribuir responsabilidades domésticas não significa “pedir ajuda”, mas dividir funções inerentes à vida compartilhada; e estabelecer limites, entendendo que o “não” é uma frase completa e um instrumento legítimo de preservação da saúde mental.

Reconhecer a importância do autocuidado, acrescenta a docente, também é uma forma de transformação social. “Cuidar de si não é abandonar o outro, mas garantir condições emocionais para sustentar relações mais saudáveis e equilibradas”.

Sobre Braz Cubas – Com 80 anos de história e tradição, o Centro Universitário Braz Cubas é reconhecido pelo ensino e formação de qualidade de profissionais de diversas áreas de atuação, em Mogi das Cruzes e, também, na Região Metropolitana de São Paulo e Alto Tietê. Oferece cursos de graduação presencial e a distância, além de cursos técnicos e de pós-graduação, todos de forma inovadora, aliando a tradição com o que há de mais atual no mercado educacional. A Instituição agora integra o grupo Cruzeiro do Sul Educacional, um dos mais representativos do País, que reúne instituições academicamente relevantes e marcas reconhecidas em seus respectivos mercados. Acesse: www.brazcubas.br

Redação

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