Cantora apresenta o álbum Luz na íntegra na quinta-feira (3), na Casa de Cultura Yayah, em uma homenagem que nasce de memórias familiares, paixão pela música e do desejo de retomar a própria carreira artística

Há homenagens que nascem de uma ideia. Outras nascem de um grande amor. O tributo a Djavan que Valéria Custódio apresenta na quinta-feira (3), às 20 horas, na Casa de Cultura Yayah, em Mogi das Cruzes, pertence à segunda categoria. A cantora decidiu criar o projeto a partir de uma relação construída desde a infância com a obra de Djavan. Em sua família, a música do artista sempre esteve presente, especialmente por influência do tio Ricardo, conhecido como Marreco, fã declarado do compositor e colecionador de vinis. Foi também ele quem esteve em sua primeira apresentação na Yayah, em um momento que hoje ganha ainda mais significado.
“Em casa, tenho um tio chamado Ricardo que escuta muito Djavan. Ele é fã mesmo. Ele foi na minha primeira apresentação ali na Yayah fazendo esse show e sempre foi uma influência muito grande desde pequena para prestar atenção na obra dele”, conta Valéria.
A relação com os discos de vinil também ajudou a construir sua maneira de ouvir música. As reuniões familiares na casa do tio, cercadas por LPs e longas audições, representam para a cantora uma memória afetiva e, ao mesmo tempo, uma formação musical.
“Meu tio sempre gostou muito de vinil, o que nos coloca em uma audição diferente. A gente vai na casa dele, dá para escutar os vinis. Eu tenho vinil e isso me remete a um lugar muito aconchegante de família, além de possibilitar um gosto musical muito rico, bonito mesmo”, afirma.
Depois do falecimento da mãe, Valéria passou um período sem cantar de verdade, sem se dedicar ao canto como forma de expressão artística. O trabalho com música continuou de outras formas, mas havia um desejo de voltar a cantar, fazer um projeto autoralmente significativo e escolher, sem tantas preocupações externas, aquilo que realmente gostaria de levar ao palco.
“Estava fazendo coisas para trabalhar, mas este ano estou tomando as rédeas da minha carreira, vendo o que quero cantar, quem quero homenagear, e sem ficar preocupada se tem muita gente fazendo”, explica.
Foi nesse processo que surgiu a ideia de homenagear Djavan. A cantora conta que chegou a cogitar também um projeto dedicado a Marisa Monte, mas decidiu começar pelo compositor alagoano.
“Eu estava pedindo um projeto musical bonito, que eu gostasse de fazer, e me veio essa resposta. Falei: caramba, é isso! Gosto tanto desse artista, por que não?”, lembra. “Era ele e Marisa Monte. Fiquei na dúvida entre os dois. Pensei: vou fazer Djavan primeiro, depois Marisa.”
A primeira experiência aconteceu justamente na Casa de Cultura Yayah, em uma apresentação que Valeria define como um “protótipo” do projeto. O show chamou a atenção de Gustavo de Castro, da Rizoma Discos, que a convidou para integrar o Festival Gira o Disco e propôs um desafio especial: apresentar um álbum de Djavan na íntegra.
Luz, de 1982, na íntegra
A escolha recaiu sobre Luz, lançado em 1982 e gravado em Los Angeles. O álbum é um dos trabalhos marcantes da discografia de Djavan e traz, entre outras canções, “Samurai”, que ganhou a participação de Stevie Wonder na gaita.
Para Valéria, a proposta do festival , de apresentar álbuns completos, dialoga diretamente com sua maneira de enxergar a música.
“O formato que o festival está apresentando, de álbuns completos, é uma coisa dificílima de ver hoje em dia. Quem gosta de música, ou quem é da nova geração e está sedento por novidades, vai encontrar isso”, avalia.
Na primeira parte do espetáculo, Valéria e o violonista Gui Cardoso apresentam Luz na íntegra, em um formato de voz e violão. Depois, o repertório se amplia para outras fases da carreira de Djavan, reunindo músicas de diferentes momentos de sua obra, incluindo canções de Malásia, Djavan e Lilás. Entre elas estará “Lilás”, música especialmente importante para a cantora. O título de seu trabalho Miragem, de 2022, nasceu justamente da canção do álbum Lilás.
“Vou cantar músicas que tenho paixão em cantar, músicas que fervem dentro, e digo: preciso fazer.”
A essência de Djavan
A escolha pelo formato voz e violão para abrir o espetáculo também é simbólica. Djavan ficou conhecido, desde o início de sua trajetória, pela força de suas composições e pela relação íntima entre voz, violão e canção.
Seu primeiro álbum, A Voz, o Violão, a Música de Djavan, lançado em 1976, já carregava essa essência.
Para dividir o palco, Valéria convidou Gui Cardoso, violonista que considera um músico de excelência. Depois do primeiro set, o show ganha a formação em banda, permitindo explorar outras possibilidades sonoras e criar uma apresentação com diferentes atmosferas.
“Decidi começar com voz e violão porque o Djavan é muito conhecido por isso. Inclusive, o primeiro álbum dele é A Voz, o Violão, a Música de Djavan. Convidei o Gui, que é um exímio violonista”, explica.
Mais do que uma escolha de repertório, o projeto representa para ela uma espécie de reencontro com a razão pela qual escolheu a música.
“É uma honra fazer Djavan. Estou com muito carinho e seriedade, porque sei que vem de dentro do meu âmago, do meu querer cantar, do porquê quis ser cantora, do porquê quis a música.”
A cantora reconhece em Djavan ,assim como em Marisa Monte e Billie Holiday, artistas que fazem parte de sua formação e de seu desejo de cantar. Por isso, este momento representa também uma forma de retribuição.
“Djavan tem muita responsabilidade nisso, na minha decisão de ser cantora. Esse é o momento em que faço essa retribuição por tudo. Não que Djavan precise”, brinca. “Mas todas as homenagens para ele ainda são poucas. E que bom que estamos fazendo ainda em vida.”, celebra.
O encontro entre memória familiar, formação musical e retomada artística transforma o show em algo que vai além de um tributo. É uma declaração de amor à música e a um artista que acompanha Valéria desde muito antes de ela imaginar que um dia estaria no palco cantando suas canções.

Serviço
Valéria Custódio canta Djavan – Festival Gira o Disco
Quando: Quinta-feira, 3 de setembro
Horário :20h
Local: Casa de Cultura Yayah , Mogi das Cruzes
Ingressos: R$ 15


