A Semana



A família D’Champs (Rogério de Moura)



O final de ano se aproximava e a família D’Champs esperava mais um rebento
de presente de Natal. Era o nono e último filho do casal Difrene e Gracionda e, segundo
o avô alemão, seu Orlando, pai de Gracionda: “agorra, vai fecharr o fabrriquinha”. Para
o casal, uma boca a mais ou a menos não fazia diferença. O marido tinha um bom
emprego, era alto-funcionário de Estatal o que lhe garantia salários polpudíssimos, o
problema era com o nome do bebê.
Acontecia que eles, quando ainda eram noivos, combinaram como seriam os
nomes dos futuros D’Champs. Ficou acertado assim: se nascesse menino, começaria
com “D”, e ligeira variação de Difrene; caso menina, início de “G”, com desvios de
Gracionda. Assim foi, conforme listados por ordem de nascimento:
Difrene Jr., Dufrene, Daufrene e Dufrans, os homens.
Graciona, Graciola — é Graciola mesmo, e não Gracíola, talvez tenha sido erro
do escrevente do cartório — Graciele e Graciana, as mulheres.
E agora? Como seria o nome do próximo rebento, diante de tanta variação? Seu
Frene e Dona Graça, como eram chamados, já tinham tentado de tudo para dar nome ao
nascituro, que, pela ultrassonografia, parecia ser do sexo feminino. Combinaram os
nomes: Grafrene, Gracifrene, Gradi, Gracine, Difreonda, Dionda, Fregraça, Freneonda.
Descombinaram, recombinaram, pesquisaram em tudo que foi lugar, listas telefônicas,
sítios da internet e nada do nome da provável menina brilhar a eles. Não teve jeito. O
rebento rebentou sem nome, afinal, toda prenhez tem de ser parida; como todos nascem,
independentemente de qualquer lei imposta pelos homens. Era menina mesmo.
Dias depois, o casal, triste e preocupado, dirigiu-se ao 1.º Cartório de Registro
Civil das Pessoas Naturais de Rios das Cobras para registrar a criança. A família foi
junto, inclusive seu Orlando, pois, ainda sobrevivera a esperança de que no último
minuto, aos 45 do segundo tempo, aparecesse a solução. Se não seria Maria, mesmo.
Fazer o quê? Como disse seu Difrene.
Entregaram os documentos ao escrevente auxiliar e foram para a sala ao lado
aguardar a vez, a família toda, em comitiva. A espera estava causticante, um silêncio
mórbido insistia entre eles, de olhar em olhar, entre suspiros, sons de estalidos e
meneares de cabeça.
— Difrene e Gracionda D’Champs! — anunciou o escrevente. A comitiva se
encaminhou em bloco à frente do guichê. O pai liderando o grupo sacou a carteira e
consultou o atendente:
— Quanto é o registro?
— É de graça — respondeu o escrevente e continuou — Qual o nome da
menina?
— Isso mesmo — pensou o pai em alta voz e emendou — DIGRAÇA
— Sim, é de graça. O senhor não precisa pagar pelo registro, é lei federal.
— O senhor não entendeu — e gritou para todos ouvirem — DIGRAÇA
D’Champs é o nome da menina — e a família explodiu de alegria…
Seu Orlando; muito sacana, ainda retrucou ao final: — Se não serria o Marria
Disgrraça, mesmo. rr!

Redação

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