A Semana



Equilíbrio entre afeto e digital é possível, dizem pais e psicóloga 

O desafio de criar filhos em uma sociedade cada vez mais conectada passa por estabelecer limites

Pais de Rafaela, Nicole e Rodrigo, têm uma filha universitária: participação e limites

O Dia das Crianças é uma data de celebração, mas também um convite à reflexão sobre como a infância vem sendo vivida em uma sociedade cada vez mais conectada. Celulares, tablets, computadores e televisores fazem parte da rotina dos pequenos desde muito cedo e, diante dessa realidade, pais e educadores enfrentam um desafio diário: encontrar o equilíbrio entre o universo digital e as experiências fundamentais para o desenvolvimento infantil.

Mais do que simplesmente controlar o tempo de tela, é preciso oferecer alternativas e fortalecer os vínculos familiares. Brincadeiras, leitura, conversas, participação nas tarefas de casa e momentos de convivência são formas simples de mostrar às crianças que existe um mundo inteiro para ser descoberto além dos dispositivos eletrônicos.

Para conhecer diferentes formas de lidar com esse desafio, conversamos com famílias que encontraram maneiras próprias de conciliar tecnologia e convivência. Entre elas estão os pais da pequena Rafaela, de 6 anos, o médico Rodrigo Araújo Madureira, 47 anos, e a médica Nicole Pelli Palumbo Madureira, 38 anos, além da professora Tainá Lopes de Araújo, 31 anos, mãe de Analuz, de 4 anos. A psicóloga, professora universitária e especialista em Saúde Mental, Priscilla Paccitto do Nascimento, 41 anos, também faz uma análise sobre os efeitos da relação entre infância e tecnologia.

Rotina organizada

Na casa de Rodrigo Araújo e Nicole, a rotina de Rafaela, aluna do Year 1 do Colégio Saint Thomas’, é estruturada para que a tecnologia tenha seu espaço, mas não ocupe o centro da vida familiar. Segundo ele, pela manhã, a filha pode assistir um pouco de televisão antes de ir para a escola. No retorno para casa, as telas também podem aparecer durante o trajeto de carro, depois que ela conta aos pais como foi o seu dia.

Para o médico, estabelecer limites exige participação dos adultos. “Oferecemos muito pouco essa oportunidade [de telas]. É desafiador, pois é necessário criatividade, atenção e um momento nosso sem os nossos próprios celulares, para que seja de qualidade”, afirma.

A família, que tem uma filha universitária, criou pequenos rituais de convivência. Depois do jantar, Rafaela participa de atividades como desenhos, pinturas e jogos da memória. Antes de dormir, a leitura encerra a rotina.

Quando surgem momentos de irritação ou tédio, os pais procuram entender o que está por trás daquele comportamento. “Tentamos sempre entender o motivo que causou tal descontentamento, validando seus sentimentos e oferecendo acolhimento, abraços e carinho”, conta Rodrigo Araújo.

Professora Tainá Lopes, mãe de Analuz: Acompanhamento e escolhas assertivas

Compartilhamento

Para Tainá Lopes de Araújo, professora polivalente, casada com Matheus Esteves da Costa, 30 anos, e mãe de Analuz, 4 anos, a tecnologia pode fazer parte da rotina infantil desde que exista acompanhamento e escolhas adequadas à idade. Analuz estuda em período integral e, no final da tarde, costuma assistir a desenhos com a mãe. “O uso de telas acontece principalmente pela televisão, sempre em plataformas adequadas para a idade dela, dando preferência para filmes e desenhos animados mais longos, que conseguimos ver juntas”, explica.

A participação dos adultos também ajuda a transformar o momento diante da tela em uma experiência compartilhada, e não apenas em uma forma de manter a criança ocupada. Fora dos dispositivos, Analuz encontra espaço para brincar com massinha, bonecas e jogos de memória.

A cozinha também se tornou um ambiente de aprendizado e aproximação entre mãe e filha. “É comum que nos acompanhe enquanto cozinhamos e, dentro do que é seguro para a idade, participe de algumas tarefas, como mexer os ingredientes ou ajudar a preparar os alimentos”, relata Tainá.

Para ela, atividades corriqueiras, como cozinhar, dar banho ou colocar a filha para dormir, são oportunidades importantes de troca e carinho. São momentos que não exigem grandes produções, apenas disponibilidade e presença.

Lidando com o tédio

A psicóloga, pós-graduada em Saúde Mental e mestre Priscilla Paccitto ressalta que a discussão sobre tecnologia na infância não deve se limitar à contagem de minutos diante de uma tela. Também é necessário observar qual função os dispositivos estão desempenhando na rotina da criança.

“Quando ele passa a ser utilizado para preencher praticamente todos os momentos de espera, silêncio, frustração ou tédio, a criança pode ter menos oportunidades de experimentar outras formas de estar no mundo, como brincar, conversar, imaginar e lidar com pequenas frustrações”, explica.

Nesse processo, os adultos também precisam olhar para os próprios hábitos. A criança aprende pelo exemplo e observa como pais e responsáveis utilizam seus celulares e outros dispositivos.

E quando surge a conhecida reclamação de que está “entediada”, a especialista recomenda que os adultos não tenham pressa para eliminar esse sentimento. “O tédio não precisa ser imediatamente eliminado. Ele também é uma experiência que a criança precisa aprender a atravessar.”

É justamente nesse espaço de não saber o que fazer que podem surgir a criatividade, a imaginação e novas brincadeiras. Para Priscilla, a brincadeira livre é fundamental para o desenvolvimento, pois permite que a criança seja protagonista, crie histórias e processe emoções que ainda não consegue expressar em palavras.

Limites são cuidado

Estabelecer regras para o uso da tecnologia, portanto, não precisa significar punição ou conflito. Segundo a psicóloga, os limites funcionam melhor quando são claros, previsíveis e coerentes. “Limite também é cuidado. Para funcionar melhor, ele precisa ser claro, previsível e coerente. A criança precisa saber quando pode usar a tela, por quanto tempo e o que acontece depois”, orienta.

As experiências das famílias mostram que não é necessário escolher entre tecnologia e infância. É possível permitir que os recursos digitais façam parte da rotina, ao mesmo tempo em que se preservam atividades que estimulam criatividade, autonomia e convivência.

Neste Dia das Crianças, a reflexão não precisa ser sobre transformar a tecnologia em vilã, mas sobre impedir que ela substitua aquilo que nenhuma tela consegue oferecer: uma conversa, uma brincadeira compartilhada, uma história antes de dormir, um abraço ou simplesmente a atenção de quem está por perto.

Em uma infância cercada por estímulos digitais, talvez o maior presente continue sendo aquele que não pode ser comprado nem baixado: tempo de qualidade, afeto e presença.

Psicóloga Marcella Paccitto: “Limite também é cuidado”

Redação

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