Nos 466 anos de Mogi das Cruzes, o jornal A Semana resolveu mergulhar na história da cidade, revisitando os pontos turísticos e culturais e suas memórias afetivas por meio do projeto (Re)Descubra Mogy das Cruzes, criado em 2025 pelo professor e historiador Glauco Ricciele. A ideia é promover uma jornada profunda pela história, resgatando suas curiosidades, patrimônio e riqueza cultural, bem como suas lendas emblemáticas.
Vamos conhecer, agora, um pouco mais de Mogy das Cruzes, com y, entrando num túnel do tempo, redescobrindo e resgatando sua história, lendas e culturas. Bora lá!
Ponte dos Suspiros

A emblemática Ponte dos Suspiros, que outrora conectou trechos centrais entre as ruas Ipiranga e Coronel Cardoso de Siqueira em Mogi das Cruzes, guarda em sua memória uma narrativa que vai muito além de sua função de passagem urbana e do romantismo dos encontros cotidianos do início do século XX. A estrutura, fundamental para encurtar o trajeto de pedestres que venciam o desnível topográfico da região, tornou-se parte da rotina local associada tanto ao cansaço quanto ao alívio e suspiro daqueles que cruzavam a elevação do terreno no dia a dia. A tradição histórica e a memória local preservam uma dimensão muito mais densa e trágica sobre a origem do seu nome: segundo relatos da formação da cidade, naquele mesmo local existia a antiga forca pública municipal, espaço onde pessoas escravizadas condenadas eram executadas. Assim, o nome “Ponte dos Suspiros” remonta ao lamento e ao “último suspiro” dado por aqueles que ali perdiam a vida sob a violência do sistema escravagista colonial e imperial. Com as intensas transformações urbanísticas, canalizações de córregos e nivelamentos viários ocorridos ao longo do século passado, a estrutura física da ponte desapareceu da paisagem, mas sua história permanece viva na historiografia mogiana como um marco fundamental de reflexão, memória e resistência do patrimônio afro-brasileiro no centro histórico da cidade.
Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, em Mogi, é um dos maiores símbolos de resistência e fé da população negra na cidade. Fundada no século XVIII pela Irmandade do Rosário, sua construção original foi concluída entre 1827 e 1837, utilizando técnicas como a taipa de pilão. O templo servia como refúgio espiritual e social para escravos e libertos, que ali organizavam auxílio mútuo e a compra de alforrias. Localizada na antiga Rua Alegre – posteriormente 13 de Maio e hoje Dr. Deodato Wertheimer -, a paróquia foi transferida para o bairro da Vila Industrial em 11 de fevereiro de 1958, seguida pela bênção da pedra fundamental do novo templo em 08 de outubro de 1961 e sua instalação definitiva em 03 de fevereiro de 1963, permanecendo até os dias atuais. O templo original, no centro, foi vendido e demolido na segunda metade da década de 1960, dando lugar a um prédio com galerias comerciais e um hotel. O dinheiro oriundo da venda foi destinado pela Mitra Diocesana para o término da torre e dos acabamentos da recém-inaugurada Catedral Diocesana de Mogi das Cruzes, naquela década.
Calçadas Mogianas

Quem caminha pelo centro histórico de Mogi das Cruzes sobre o piso de mosaico em formas ovais pretas e brancas está, na verdade, percorrendo um importante capítulo da história econômica local. Projetado na década de 1970 pelo arquiteto Lauresto Hecher, o icônico calçadão foi concebido com um propósito claro: homenagear a avicultura, setor que transformou o município no maior produtor de ovos da América Latina naquele período. Inspirado no famoso calçadão paulistano com o mapa do Estado, Hecher criou uma identidade visual própria e marcante para a cidade. Essa era de ouro da produção agrícola esteve diretamente conectada ao trabalho da imigração japonesa na região, especialmente em bairros como o Cocuera, onde as famílias nipônicas introduziram técnicas modernas de manejo e organização comunitária. Mais do que um elemento de infraestrutura urbana para o trânsito de pedestres, o desenho das calçadas funciona como um monumento horizontal e um patrimônio preservado sob os pés da população, imortalizando o legado dos trabalhadores do campo, o impacto da cultura nipo-brasileira e o histórico título de capital do ovo que moldou o crescimento mogicruzense.
Igrejas do Carmo

No coração de Mogi, o Conjunto do Carmo abriga um dos mais relevantes e raros acervos da arquitetura e da arte colonial do Estado de São Paulo. O complexo destaca-se por reunir duas igrejas distintas erguidas lado a lado: a Igreja da Ordem Terceira, datada de cerca de 1720, e a Igreja do Convento, cuja estrutura atual remonta à segunda metade do século XVIII. Construídos com a tradicional técnica de taipa de pilão, os templos preservam em seu interior a suntuosidade e a delicadeza dos estilos Barroco e Rococó, evidenciadas no detalhe dourado do altar-mor e em detalhes ornamentais que expressam o ápice artístico do período colonial paulista. Tombado nacionalmente pelo IPHAN como patrimônio histórico e artístico, o conjunto carmelita é um testemunho vivo do papel fundamental desempenhado pela Ordem Terceira na formação social, religiosa e cultural de todo o Alto Tietê. Visitar o local é fazer uma imersão na história setecentista, onde a preservação da fé e da memória histórica continuam a dialogar com o ritmo moderno da cidade, atraindo pesquisadores, fiéis e turistas admiradores da herança colonial do Brasil.
A Menina da Pipoca

Todos os anos, durante o Dia de Finados, o Cemitério de São Salvador em Mogi torna-se palco de uma das tradições mais comoventes da cidade: a peregrinação ao túmulo da “Menina da Pipoca”. Sepultada em 1879, a pequena Benedicta Georgina teve sua memória perpetuada após os pais encomendarem uma obra em mármore representando uma criança deitada com flores nas mãos. A imaginação popular, contudo, enxergou pipocas no lugar das pétalas esculpidas, dando origem a uma lenda transmitida por gerações. Segundo o relato folclórico, a menina teria morrido engasgada com pipoca como um suposto castigo por querer ver a procissão de São Benedito, que os pais haviam evitado ao fechar as janelas da casa. Embora historiadores indiquem que a morte trágica da criança provavelmente decorreu de um acidente com brinquedo ou berço, o mito popular sobrepôs-se ao fato histórico. A escultura tornou-se um símbolo de devoção infantil, atraindo mães e devotos que realizam romarias, fazem orações e depositam flores sobre o mármore, mantendo acesa uma das lendas urbanas mais afetivas e duradouras do folclore mogiano.
JBC – José Benedicto da Cruz

Conhecido popularmente como “Zé Santeiro”, “Zé Pedreiro” ou “Zé Pintor”, José Benedicto da Cruz (1877-1934) foi uma das figuras mais singulares da arte sacro-popular paulista do início do século XX. Autodidata, caboclo de olhos verdes e profundamente devoto, JBC dividia seus dias entre tarefas braçais para a subsistência da família – como alvenaria e caiação – e a criação artística devocional. Sua contribuição mais marcante foi a ornamentação de dez “igrejas da roça” espalhadas por Mogi, Guararema e Biritiba Mirim. Em Mogi, deixou sua maior obra na Igreja de São Sebastião, em Taiaçupeba, onde atuou na edificação em taipa, esculpiu o altar-mor e assinou afrescos no forro e no arco cruzeiro. Trabalhou também nas capelas do Quatinga e do Barroso, esculpindo imagens de santos e divinos em madeira e barro. Após anos dedicados à fé e à arte rural, enfrentou um doloroso declínio mental no fim da vida. Resgatado do esquecimento graças às pesquisas do historiador Eduardo Etzel, o legado rústico e autêntico de JBC é reconhecido hoje como um patrimônio de inestimável valor para a imaginária popular paulista e a cultura caipira.
Asylo-Colônia Santo Ângelo

Inaugurado em 1928 no distrito de Jundiapeba, o Asylo-Colônia Santo Ângelo foi o primeiro hospital-colônia estadual de São Paulo projetado para o isolamento compulsório de pessoas com hanseníase. Planejado sob a influência das ideias de sanitaristas como Emílio Ribas, o complexo foi desenhado como uma minicidade autossuficiente, contando com escola, armazém, área de lazer e até o Cine Teatro, projetado por Rino Levi. Por trás da infraestrutura moderna para a época, contudo, escondia-se o drama das políticas higienistas: recém-nascidos eram separados compulsoriamente dos pais e levados a preventórios, rompendo laços familiares de forma irreversível. Apenas em 1986 a internação compulsória foi extinta no País. Reformulado, o local passou a se chamar Hospital Dr. Arnaldo Pezzuti Cavalcanti, tornando-se referência no atendimento a pacientes crônicos e reabilitação física. Tombado pelo Condephaat em 2018 por sua relevância arquitetônica e histórica, o espaço de mais de 600 mil metros quadrados preserva a memória sensível da saúde pública brasileira e continua sendo o lar de uma comunidade de ex-pacientes e descendentes que simbolizam a resistência local.
Gruta de Santa Therezinha

Encravada na Serra do Itapeti, no bairro Jardim Aracy, a Gruta de Santa Therezinha é uma formação geológica única, marcada por rochas sobrepostas que abrigam um oratório, um cruzeiro e uma pequena nascente do Rio Itapeti. A mística do local remonta a uma antiga lenda popular sobre um caçador que, ao ser encurralado na serra por um lobo feroz, pediu o socorro de Santa Terezinha. Milagrosamente, a rocha abriu-se em uma fenda que lhe serviu de abrigo. Em agradecimento, o homem retornou ao local para depositar a imagem da santa francesa canonizada em 1925. A partir da construção de um oratório na década de 1930, a gruta tornou-se um dos principais pontos de peregrinação religiosa e turismo contemplativo de Mogi das Cruzes, reunindo famílias em piqueniques e celebrações, especialmente nos feriados de primeiro de maio. Embora a visitação em massa tenha diminuído ao longo do tempo, o espaço permanece vivo no mapa afetuoso do município graças à dedicação constante de devotos voluntários da comunidade, que zelam pela limpeza do entorno e lutam pela preservação do patrimônio e da espiritualidade na serra.
Biquinha e Tanque das Lavadeiras

Nascida das águas do antigo Córrego dos Bambus na Rua São João, a popular Biquinha foi uma das fontes de água potável mais emblemáticas do cotidiano de Mogi. O local era ponto de encontro diário de dezenas de lavadeiras e moradores que buscavam água fresca para o abastecimento doméstico. Cercada por um forte imaginário folclórico, a nascente carregava lendas de que anjos se banhavam ali nas madrugadas e de que todo visitante que bebesse de suas águas jamais deixaria a cidade – ou fatalmente retornaria um dia. Para organizar o intenso fluxo e estruturar o trabalho das mulheres, a Prefeitura construiu, em 1932, um grande tanque circular de lavar roupas, consolidando o espaço como um vibrante centro de convivência social e trabalho comunitário das classes populares. Na década de 1960, o córrego foi canalizado e a bica deu lugar ao asfalto e a uma praça de convivência urbana. Embora a estrutura física não exista mais, o legado social das lavadeiras e o famoso ditado sobre “beber a água da Biquinha” continuam profundamente enraizados na identidade e na memória afetiva da população mogiana.
História de Sabaúna

Com nome de origem tupi-guarani que significa “Concha Preta”, o bucólico distrito de Sabaúna nasceu em terras doadas ao Convento do Carmo no período colonial. A antiga fazenda carmelita, produtora de milho e cana-de-açúcar, foi palco de importantes episódios pré-abolicionistas quando escravizados alforriados conquistaram na Justiça o direito de não trabalhar para arrendatários particulares. No fim do século XIX, o Estado adquiriu a área e criou o Núcleo Colonial de Sabaúna, assentando famílias de imigrantes espanhóis, italianos, tiroleses e alemães. A chegada da ferrovia em 1893 impulsionou o povoamento e, em 1919, o distrito serviu como porta de entrada para a imigração japonesa na cidade. Durante a Revolução de 1932, a estação abrigou tropas combatentes. Hoje, Sabaúna mantém sua atmosfera serena com ruas de paralelepípedo e casarios preservados, despontando como um vibrante polo do turismo cultural e ecológico de Mogi das Cruzes. A estação histórica abriga um museu ferroviário mantido pela ANPF, enquanto eventos tradicionais como a Festa do Divino e o Festival do Cambuci celebram a gastronomia, a história e a identidade da comunidade local.
idades e origens, fortalecendo os laços comunitários e o sentimento de pertencimento à cidade. Por fim, ao transformar locais como o Centro Histórico de Mogi das Cruzes, o Cemitério São Salvador, o Antigo Asylo-Colônia Santo Ângelo (Hospital Arnaldo Pezzuti Cavalcante) e a Catedral de Sant’Ana em palcos para exploração de narrativas históricas, o projeto ressignifica o ambiente urbano e convida os participantes a observarem a cidade sob uma perspectiva totalmente nova. Siga pelas redes sociais @redescubramogy e @glaucoricciele ou pelo site glaucoricciele.com.
FONTE: Professor e Historiador Glauco Ricciele


