A Semana



Dia da Mulher: quando a arte se transforma em um gesto de alegria

Mulheres transformam imaginação em caminhos felizes

Um palco improvisado. Um nariz de palhaço. Um figurino colorido. Às vezes basta um gesto, uma palavra ou um olhar para que alguém, do outro lado, esqueça por alguns instantes os problemas e permita que o riso apareça.
É nesse espaço — entre o sonho, a arte e a vida real — que mulheres como Ana Clara Rotta, Ray Evangelista e Lúcia Taiza Teixeira Diniz constroem suas trajetórias. Mais do que apresentações, elas entregam experiências capazes de tocar o coração de quem assiste.
No Dia Internacional da Mulher, suas histórias revelam algo em comum: a coragem de transformar sensibilidade em profissão e de levar alegria como forma de encontro com o outro.
Aos 33 anos, a multiartista Ana Clara Rotta encontrou na arte um caminho de reconstrução. Formada em Relações Internacionais, ela chegou a trabalhar em um escritório de advocacia internacional. Mas, apesar da carreira estruturada, sentia que algo faltava.
Durante um período de depressão, começou a fazer aulas de canto para se ajudar emocionalmente. Foi nesse momento que recebeu o convite para participar de um workshop de teatro — e ali descobriu um novo rumo. “Depois disso nunca mais saí das artes”, conta.
Hoje, ela integra a Coletiva EnCanto da Lua, que apresenta um espetáculo infantil já levado a mais de 20 CEUs da cidade de São Paulo e também a aldeias indígenas. A montagem convida crianças a refletirem sobre ancestralidade, brincadeira e imaginação. Além disso, Ana Clara também criou o espetáculo “A Queda”, um monólogo em que a palhaça Lili narra histórias de relações afetivas e aborda as violências de gênero. A peça já teve apresentações na região do Alto Tietê e recebeu prêmio em festival de teatro.
Mesmo diante dos desafios da carreira artística, ela afirma que a emoção do público é o combustível que a mantém no caminho. “Trabalhar levando sonhos para crianças e risos para adultos é um caminho cheio de obstáculos, mas ver uma emoção na plateia me dá energia para continuar.”
Se para Ana Clara a arte foi descoberta ao longo da vida, para Ray Evangelista, de 31 anos, ela sempre esteve presente.
Professora de Língua Portuguesa, atriz, diretora teatral e fundadora da Cia Somuzum, Ray cresceu em um ambiente onde a música e a criatividade já faziam parte da rotina. Ainda adolescente, participou de uma peça inspirada no Sítio do Picapau Amarelo durante o ensino médio — experiência que mudou seu olhar sobre o teatro. “Fiquei apaixonada por construir personagem, montar figurino, maquiagem e ver a reação do público”, lembra.
Hoje, seu trabalho envolve principalmente montagens voltadas para crianças e adolescentes, além de aulas de teatro. Para ela, a arte não se limita ao entretenimento: também provoca reflexões e transformações.
Um dos momentos mais marcantes da carreira aconteceu durante uma apresentação em uma unidade da antiga Fundação Casa, em um dia de visitas familiares. “Alguns estavam sozinhos, sem família para visitar. A peça falava sobre esse tipo de situação e, de alguma forma, naquele momento eles se sentiram acolhidos”, recorda.
A artista acredita que o teatro é essencial para a sociedade e que cada encontro com o público é único. “Quando alguém se emociona ou leva um pouco da mensagem da peça para a vida, sinto que estou exatamente onde deveria estar.”
Já a história da palhaça Lúcia Taiza Teixeira Diniz começou de maneira inesperada. Natural do sertão baiano, de Senhor do Bonfim, ela mora em Mogi das Cruzes há 14 anos e é cofundadora da Cia Mina de Riso, companhia formada por mulheres palhaças que completa uma década de atuação.
Sua primeira experiência no palco aconteceu quando foi convidada para ajudar em uma apresentação durante a Semana da Criança. No improviso, o palhaço que conduzia a atividade a anunciou ao público como “Palhaça Tatá”. Ela não teve tempo para pensar — apenas entrou em cena. “Quando vi as crianças rindo, entendi que tinha encontrado parte de mim”, conta.
Hoje, além da palhaça Maria Batom e Tatá Cara de Gambá, Lúcia também atua como contadora de histórias, recreadora e produtora cultural. Grande parte do público de seus espetáculos é formada por crianças.
Para ela, provocar o riso exige sensibilidade e responsabilidade. “O riso é coisa séria. É uma bagunça organizada”, define.
Entre os momentos mais emocionantes do trabalho estão os encontros com as crianças depois das apresentações. “Quando uma criança vem dizer que escova os dentes três vezes por dia porque a palhaça falou, é a maior recompensa.”
Seja no teatro, no circo ou na palhaçaria, as três artistas compartilham uma mesma convicção: a arte pode transformar ambientes, despertar emoções e criar memórias.
Em tempos em que a rotina parece cada vez mais acelerada, elas seguem provando que a alegria também é uma forma de resistência — e que, muitas vezes, um sorriso pode ser o começo de uma mudança.

Foto 1 – Créditos: Letícia Galo
Como as suas palhaças, Lúcia Taiza transforma o riso em ferramenta de encontro, educação e encantamento
Foto 2 – Atriz e diretora teatral, Ray Evangelista acredita no poder do teatro para transformar histórias e despertar emoções

Foto 3 – A multiartista Ana Clara Rotta encontrou no teatro e na palhaçaria um caminho para levar alegria e reflexões ao público

Redação

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