Veterinários e o esgotamento por amor à profissão

Publicado em 09/09/2021

     

por Dra Jéssica Torquato

 

Hoje, 09 de setembro, Dia do Médico Veterinário é impossível não mencionarmos a Síndrome de Burnout. 

Esta síndrome refere-se ao esgotamento tanto físico como mental relacionado ao trabalho, devido a estresse crônicos onde pode-se levar a depressão profunda ou até mesmo suicídio. É triste estudarmos 5 anos de graduação, mais 2 – 3 anos de pós-graduação, fora mestrado e doutorado para nos vermos vencidos pela fadiga. 

Infelizmente os Veterinários são um dos profissionais que mais comentem suicídios não só pela fadiga, mas pelo fácil acesso a medicações que são letais. Aqueles que cometem este ato muitas das vezes é devido a altas cobranças de serem empáticos sempre e úteis perante aqueles que estão com dor ou em sofrimento. Mas para isso, não devemos cobrar ou cobrar bem pouco, afinal para muitos, fizemos a Medicina Veterinária por amor aos animais ou por dinheiro?  

Nisso, nós acabamos realizando trabalhos excessivos com equipes muitas vezes reduzidas, sem contar as competitividades entre os profissionais, restrições dos tutores diante dos tratamentos adequados e as expectativas (reais ou não) que criam, inadimplências, presenciar situações de maus tratos, autorização para realizar eutanásia e as constantes perdas, afinal todo paciente veremos morrer, pois teoricamente eles têm o tempo de vida mais curto que o nosso. Além deste breve resumo das situações, ainda há os desafios da carreira, das novas doenças, das atualizações... enfim... Nenhuma profissão é estagnada e a Medicina Veterinária está longe disso, afinal cada dia mais os pets são considerados membros da família e devem receber os melhores e mais atualizados tratamentos. Isso leva tempo e obviamente dinheiro, pois dificilmente um congresso de atualizações com os melhores profissionais, será gratuito. 

Muitas pessoas que se utilizam dos serviços veterinários têm a falsa ideologia que, se estão pagando um tratamento, uma cirurgia etc., é obrigação do veterinário cura ou salvar. Podemos, devemos e iremos fazer de tudo, entretanto essas pessoas se esquecem que é um ser vivo, um ser biológico, onde podemos realizar todo o tratamento de forma mais adequada possível e mesmo assim não conseguirmos salvar. Contudo, alguns desmerecem, pedem o dinheiro de volta ou vão para os meios eletrônicos relatar suas indignações e frustações, sem reconhecer que houve um trabalho e uma dedicação a vida daquele animal.

Fora aqueles “tutores” que tentam transferir as responsabilidades para nós Veterinários, como os constantes abandonos na clínica, a cachorrinha que emprenhou e que precisamos doar, afinal conhecemos muitas pessoas que gostam de animais, aqueles atendimentos “emergenciais” de pacientes que estão a 4 dias sem comer, sangramento a mais de 2 dias, tumores com meses de evolução, a conhecida bicheira que já tomou conta do corpo todo do animal, consultas por mensagem a qualquer hora do dia ou da semana, afinal é só passar um remedinho... coisa rápida, entre inúmeras outras situações. Se pedirmos exames, internações ... somos mercenários e não tão bons, por não conseguir diagnosticar todas as doenças só olhando. 

Com isso, vivemos com uma “eterna culpa” conscientemente ou inconscientemente. Culpa do insucesso do tratamento por mais que foi iniciado tardiamente, culpa pela realização da eutanásia mesmo tendo autorização legal do ato, culpa pelas difamações muitas vezes irreais, culpa e julgamento pelas condutas que o colega de profissão achou inadequado. Não é errado o tutor querer uma segunda opinião, ato comum na medicina humana, por isso vamos ser mais gentis e humildes quando recebermos um encaminhamento, mesmo quando discordamos do colega.      

Por mais que seja uma profissão que vem lá dos sonhos de criança nós temos muitas responsabilidades e muita coisa para se aprender, pois é Medicina, Biologia, Bioquímica, Genética, Anatomia, Produção Alimentícia, Saúde Pública... São tantas áreas para cuidarmos que nós esquecemos de cuidarmos de nós mesmos. 

Aos tutores, vamos cuidar de quem cuida daqueles que não tem voz. Tenha mais compaixão e empatia. Por diversas vezes saímos da sala que acabamos de tirar uma vida e entramos na outra sala que você está. Sorrindo e sendo o mais carinhoso possível, driblando e combatendo uma avalanche de emoções internas, pois você pode estar ali com o seu filhote todo feliz e alegre e nós não podemos entristecer esse momento.  

Á nós, veterinários, que tenhamos mais compaixão e empatia também com os colegas, tristemente é uma classe desunida. Vamos nós prevenir, estabelecer limites, realizar atividades físicas, se alimentar adequadamente, ter sonos de qualidade, socializações sem objetivos profissionais e claro, acompanhamento psicológico. Na vida, nós nunca estamos sozinhos e eu não gostaria de perder nenhum colega “por amor a profissão”!






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