Juliana Rodrigues Trio toca a complexidade da vida em novo álbum

Publicado em 27/04/2021

     

Um álbum denso, com piano, bateria e baixo. Com sentimento. Uma experiência evidentemente instrumental, mas com muitas falas, com muitas palavras. Um trabalho que valoriza o improviso, que mostra a alma. Uma celebração à vida, seus sabores e dissabores. Tudo isso – e ainda outras tantas entrelinhas, significados e conceitos- fazem parte de ‘Vive’, o novo disco de Juliana Rodrigues Trio (Juliana Rodrigues, Abner Paul e João Benjamin), que já está disponível nas plataformas digitais (YoutubeSpotifyDeezerApple MusicAmazon MusicNapster e Tidal).

 Está em uma poesia de Juliana -que nasceu em Mogi das Cruzes/SP, estudou no Conservatório Souza Lima, na Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp) e no Newpark Music Centre, na Irlanda- uma das inspirações para a concepção do álbum.

“Tão relativo o tempo/ para quê se ater tanto a um mero marco? / para quê medir tanto quando foi, se já foi, se já é? Vive.”, é o que dizia o poema escrito originalmente para acompanhar a faixa ‘Afrinco’, do CD de estreia do trio, ‘Mnemosine’, de 2017.

Como ela poderia saber que, um ano depois daquele lançamento, estaria no palco do ‘Instrumental Sesc Brasil’? Ou que dois anos depois participaria, com os companheiros Abner e João, do ‘Festival Internacional Jazz al Este’, realizado no Paraguai?

Não, ela não tinha como saber. Mas foram as experiências vividas durante a turnê no país vizinho que levaram a concepção de ‘Vive’. Afinal, seja no estúdio ou no palco, o trio sempre dá espaço para a experimentação, para a liberdade. Para a criatividade.

Juliana, Abner e João testaram, no palco, novas faixas. Alguns exemplos são ‘Entre as Estrelas e o Chão’, ‘Quatro por Meia Dúzia’, ‘Afro BA’ e também uma série de improvisos que foram incluídos em ‘Vive’.

Tudo aconteceu de forma natural. Juliana tinha crédito de algumas horas no estúdio Arsis, em São Paulo, e decidiu registrar as três canções que já tinham sido apresentadas ao público. Quando foram gravar, porém, os músicos decidiram expandir a ideia, e iniciaram a configuração de um disco inteiro.

“As músicas se transformaram bastante”, explica a pianista, que enxerga no novo trabalho uma metáfora para a vida. “A gente entendeu que é tudo um processo, e que a cada momento estamos em partes diferentes dele”.

Essa é apenas uma das várias reflexões que permeiam a obra. Todas as composições têm raízes em questionamentos complexos e por vezes pessoais. Há, por exemplo, dois improvisos - ‘Camarim, figurino e cenário’ e ‘Como fosse a cura’ - feitos por Juliana em homenagem a sua mãe, Roselene.

Com duas faixas carregadas de sentimento, ‘Vive’ já tinha cinco músicas. Outro experimento que vinha dos palcos, ‘Mataram Mais Uma de Nós’, foi adicionado. E então já eram seis. Mas ter solos apenas de Juliana não parecia justo, e ela convidou os demais integrantes a partilharem suas emoções. “Sempre digo que amo tocar minhas músicas, mas odiaria tocar somente as minhas”, afirma a artista. O resultado pode ser ouvido em ‘Sol’, com a bateria e a kalimba de Abner Paul, e ‘Pro João’, com o baixo de João.

Fruto de sentimentos muito íntimos e da sinergia entre os três artistas, o CD fala do que “é caro” a eles: a relação familiar de cada um. Isso está expresso em todos os aspectos, como nas artes da capa do CD, dos singles e do encarte físico, que transformam as letras em pássaros voando livres.

Um álbum para ser desfrutado “em todos os palcos que estiverem abertos”, ‘Vive’, aliás, foi contemplado com recursos da Lei Aldir Blanc em sua versão física. Com os recursos repassados pelo governo federal, 300 cópias serão prensadas em breve.

O projeto ainda inclui shows gravados, lives e uma minissérie documental, ‘Sobre Vive’, que explica em seis episódios os sentimentos que nortearam cada uma das faixas.

 

Faixa a faixa

Assim como a vida, o disco abre com ‘Origem’. Nessa canção, assim como ensinou o compositor Hermeto Pascoal na técnica ‘Som da Aura’, o piano de Juliana acompanha o discurso de sua avó materna, Elisa.

“É uma quebra de expectativa. Um disco de um trio instrumental que começa com uma senhorinha falando”, opina Juliana, que selecionou um pequeno trecho de uma entrevista que gravou com a própria avó. Agora em versão musicada, uma das várias histórias contadas por Elisa mostra as dificuldades vividas por uma migrante de origem humilde nos tempos em que “era tudo diferente”.

Se o início foi com a avó de Juliana, a sequência teria que ser com a mãe, Roselene.  Como uma homenagem, Juliana gravou um improviso, que embora tenha sido pensado mais melancólico, ficou com um tom alegre. “Eu não tinha controle sobre a música. Apesar do momento difícil, minha mãe me remetia também a muitas memórias felizes também”, explica a pianista, sobre ‘Camarim, figurino e cenário’.

O título da música foi pensado a partir de três lembranças. “Minha mãe era uma grande parceira e incentivadora de tudo. Ela fazia camarins monstruosos, bordava o figurino que eu usava para dançar quando era criança e me ajudava a pensar no cenário dos shows. É uma boa metáfora para dizer o quanto ela foi fundamental para que eu tivesse todos os recursos necessários para viver minha vida e minha arte”.

Depois de uma experimentação e um solo, o trio chega com tudo em ‘Afro BA’, que cria um som envolvente, complexo e dançante, com sonoridade inspirada em ritmos da cultura africana; e então há mais um solo, ‘Sol’, de Abner Paul.

Feito em homenagem à Solange, mãe de Abner, a faixa é um improviso feliz. “Ela começa com um presente que ganhei da minha mãe, a kalimba, e quando entra a bateria eu faço um som que remete a chuva, porque esse barulho d’água me lembra a infância”, explica o músico.

A próxima, ‘Mataram Mais Uma de Nós’, impacta o ouvinte, novamente com um discurso musicado. As falas são lamentos de Talíria Petrone pelo assassinato de Marielle Franco, que também tem voz na faixa. É um protesto, uma manifestação artística, uma declaração política feita pelo trio.

A energia forte dá espaço à melancolia em ‘Como se Fosse a Cura’, definida por Juliana como “autoexplicativa”, também em homenagem à mãe, e depois se abre em uma música dançante: ‘Quatro por Meia Dúzia’, tocada pelos três.

Descrita como “malemolente”, essa é uma faixa complexa. “É um Chá-chá-chá, um latin meio Bolero tocado à nossa maneira”, argumenta João, que defende a melodia “bonita e extremamente bacana de tocar”.

O último dos solos é ‘Pro João’, que João compôs para o próprio filho. Emocionante, singela e tocante, não foi uma música programada, e sim uma genuína manifestação de amor. “Sem querer cantarolei uma melodia. Foram aparecendo as ideias, fui pensando nele, nascimento, infância, ele e meu pai...”, explica seu autor, emocionado.

 

O disco se encerra com mais um tributo, outra vez com o trio completo. ‘Entre as Estrelas e o Chão’ é uma homenagem de Juliana para o próprio pai, Fábio, que é “ao mesmo tempo, uma pessoa super criativa e super sensível, mas também super certinho e pé no chão, além de fã de astronomia”.






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